Ao folhear uma das revistas da editora Abril vi um anúncio do site educar para crescer sob realização da própria editora que se intitulava “A escola do seu filho é RUIM!” e, em seguida o mesmo trouxe alguns dados negativos do Inep no cenário das escolas públicas como a média nacional das escolas públicas brasileiras no Ensino Fundamental 1º e 2º segmentos; índices de repetência; inconclusão de ensino Médio. E abaixo desse quadro de índices há o seguinte:
Lute por seu filho! Não basta colocar as crianças no colégio. Se a nota desta escola (o Ideb) for menor que 6, ela (a escola) ainda não tem um bom ensino. E, se seu filho não aprender e tirar notas baixas, não terá chances de melhorar de vida no futuro. E a culpa não será dele. Cobre o diretor por melhorias na qualidade do ensino. E cobre o professor: menos falta e comprometimento com a classe.
Fiquei chocada com o despreparo nas palavras, a falta de conhecimento do cenário das escolas públicas do Brasil, o abuso em diretamente dizer que se um aluno não tira notas boas a culpa não é dele e sim da escola e do professor. Fica claro que o site sob realização da editora julga que os pontos negativos e o retrocesso do cenário educacional brasileiro e até o não aprendizado de um aluno é culpa do diretor da escola e dos professores, julgando que estes não se comprometem com sua profissão.
QUE ABSURDA FALTA DE RESPEITO! QUE DESPREPARO! QUE DESCONHECIMENTO! QUE OFENSA! QUE DESVALORIZAÇÃO DO PROFISSIONAL!
Que conhecimento se tem para fazer isso?
Quais desses profissionais responsáveis por esta propaganda leciona em escola pública e tem conhecimento de causa para fazer uma afirmação como essa?
Eu sou professora com carteira assinada desde os meus 19 anos de idade e com 10 anos de profissão e muito mais de conhecimento de um cenário que tanto faz parte da minha vida. Sou de uma família de professores. Já lecionei de pré II ao 3º ano do Ensino Médio, trabalhei em escolas particulares e públicas (municipais e estaduais). Eu sei o que é estar em sala de aula, eu sei o que lecionar por amor, com verdade, com doação, com respeito e sei muito mais lecionar com comprometimento. Assim como a grande maioria dos professores do Brasil. Muitos dos meus alunos reconhecem o meu trabalho. E já tive muitos alunos com notas vermelhas, já tive alunos reprovados e sabem quantos me culpam? Nenhum! Porque ao contrário do que as pessoas que não vivenciam e não conhecem um cotidiano escolar, sempre oriento meus alunos que a aprendizagem ocorre quando há fatores que a proporcionam acontecer. E, isso, vai além da responsabilidade dos professores (que pelo texto se julga que os mesmos não o tem).
Certa vez, um aluno do 9º ano em 2006 (eu tinha 24 anos) veio até mim e disse: Obrigada!
E eu o perguntei: Obrigada por quê?
E ele respondeu: porque você e mais três professores me reprovaram.
Eu apenas o fiz 6 perguntas de maneira calma, porém séria:
Meu filho, quem não estudou durante todo o ano letivo? Quem não fez os exercícios propostos em aula e para casa? Quem faltou com o respeito tantas vezes e foi repreendido por mim? Quem matou tantas aulas? Quantas vezes seus responsáveis vieram a reunião? E quem respondeu as provas?
Ele, obviamente, respondeu EU MESMO PROFESSORA todas as vezes. E eu, complementei, apenas corrigi os exercícios que você não fez, estive presente em todas as aulas, vim a TODAS as reuniões de pais, o chamei a atenção por péssimo comportamento em todas as vezes que um ser humano comum não teria metade da paciência e sabedoria ao fazê-lo.
O aluno, após ficar uns minutos em silêncio, me disse:
Me desculpe professora! A senhora tem razão!
Me surpreendi revendo o mesmo aluno 4 anos depois numa outra turma e o mesmo me recebeu muito bem, me tratou com carinho e respeito. Só que matou algumas aulas já que é usuário de drogas e álcool e numa dessas vezes, ao ser chamado a atenção pelo inspetor por estar cabulando a aula, o mesmo adentrou a sala, durante a minha aula, completamente embriagado e também após fazer uso de maconha. E nessa hora ninguém pensa que a professora corre risco. Não é fácil lidar com situações como essa e por Deus eu soube lidar com o comportamento agressivo e implicante dele com os colegas neste dia de aula. Ele foi aprovado porque a média da escola era bem irrisória.
E esse é apenas um dos exemplos dos quais eu e mais milhares de colegas passamos por muitas e muitas provações no dia a dia.
É incrível como aspectos que estressam, amedrontam, enfurecem, deixam INCONFORMADO qualquer ser humano, aos professores deve-se apenas apontar e achar que devem engolir e agüentar.
Nós temos família, nós somos profissionais sim. Mas superumanos JAMAIS!
Ano passado trabalhei em QUATRO escolas e me dediquei as 4 da mesma maneira, trabalhei muito não para enriquecer financeiramente, mas intelectualmente e poder dar pelo menos, com esse salário miserável, o mínimo a minha filha: um plano de saúde e uma escola (Já que pela idade a vaga numa creche pública seria sorteada, e a educação da minha filha não pode depender de sorte e sim de esforço). Cumpri com todos os meus papéis e não virei superumana. Ganhei ao longo dos anos bruxismo, gastrite, dores de cabeça, insônia, assim como muitos dos professores que por mais amor que se tenha pela profissão, buscam trabalhar incansavelmente para ganhar o mínimo para arcar com seus custos.
Sim! Professores comem, se vestem, fazem cursos, compram livros e para isso precisam de dinheiro.
Quando se colocam menos falta devem tentar se ater ao grande número de professores que entram de licença. Mas eles não entram de licença para passear, entram para tentar sobreviver a tantas cobranças, a tantas situações de estresse absoluto, a tanta falta de recursos.
Se tivessem o mínimo de conhecimento escreveriam: Aos pais, acompanhem seus filhos, verifiquem deveres de casa, proporcionem um ambiente de paz e sossego em casa para o mesmo fazer suas atividades, não culpe seus filhos por seus problemas. Oriente-o para que eles respeitem e admirem seus professores. Valorize e estimule seu filho a cada conquista de aprendizagem; Cobrem do governo que disponha recursos mínimos para o professor trabalhar (como pode em pleno século 21 apagar-se um quadro com papel higiênico ou o professor ter que implorar por uma caneta de quadro) . Exija que ao invés de tentar informatizar a freqüência dos alunos, se ofereça recursos bibliográficos adequado para os alunos. Muitos não tem livros. EXIJA que no Ensino Fundamental, pelo menos, coloquem os 6 tempos mínimos de Matemática e Português. (Eu afirmo que, com conhecimento de causa, não é possível ensinar de forma significativa os conteúdos da grade curricular em 4 tempos).
PAIS, ACREDITEM, A APRENDIZAGEM DO SEU FILHO DEPENDE DE VÁRIOS FATORES. MAS O PRINCIPAL DELES É A SUA PARTICIPAÇÃO NA ORIENTAÇÃO E ACOMPANHAMENTO DENTRO E FORA DA ESCOLA.
É simples! Só se deve escrever sobre aquilo que se conhece.
Esta carta de desabafo escrevo não só em meu nome, mas em nome da minha profissão a qual tanto me dedico COM COMPROMETIMENTO!
O valor dado ao professor está diretamente ligado ao crescimento do país! É coisa muito séria... Sou sua fã!!! Sábias palavras. Boa sorte para nós...
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